POP Pills Addiction

Prescrito para estados alterados da mente.

Friday, May 09, 2008

Sweet Dreams






Sweet Dreams

(Eurythmics)





Escuridão completa. Acho que estou num sonho, mas não tenho certeza se realmente peguei no sono. Há uma presença ao redor, entretanto não consigo localizá-la. Até que vejo uma mão sobre minha cabeça. Ela segura uma faca enorme, tão afiada que chega a brilhar (embora não sei de onde vem a luz que a ilumina). Desce certeira em meu pescoço, deslizando em minha carne suavemente. Meu sangue espalha-se por todo lado, jorra pelo corpo inteiro, um rio caudaloso que segue inexorável por margens invisíveis. Acordo assustado, só que nada realmente aconteceu. Volto a dormir, ou ao menos tento.



Na noite seguinte, o ritual se repete. Ainda estou incerto se realmente durmo. Novamente encontro-me só na escuridão. Sinto um vento frio. O silêncio é absoluto. Por fim a mão aparece, desta vez portando uma pistola calibre 38. Aponta na direção da minha testa e aperta o gatilho. Caio com um buraco na cabeça, de onde o sangue se esvai, mas antes de tocar o chão desperto.



Mais uma noite, mais uma vez encontro-me solitário em meio às trevas. Fico por um bom tempo parado, sem nada acontecer. Até que a famigerada mão se faz presente: atinge meus olhos com um soco inglês, deixando-me cego por alguns instantes. É o suficiente para que me espanque, deformando todo o meu rosto, me fazendo cuspir sangue e todos os dentes. A beira de perder a consciência, percebo que era apenas outro sonho.



Novamente estou na escuridão, agora preso em uma guilhotina. A mão cumpre seu serviço fazendo a lâmina descer e separar minha cabeça de meu corpo.



Tento evitar dormir, mas não consigo. Quando me vejo perdido no escuro, corro em desespero. Todavia, meus esforços são inúteis. A mão me persegue com uma tocha, e por mais que tente, ela não se distancia. Quando finalmente canso, meu crânio fica em chamas. O calor é tão forte que me faz despertar.



Decido que não irei mais fugir, não quero a cada noite sentir a morte de um jeito diferente. Tomo um banho, troco de roupa, acendo incensos. Só meditando conseguirei descobrir o que realmente acontece. Concentro-me na escuridão, até me enxergar nela. Logo noto a mão atrás de mim. Agora ela está vazia. Não desvio meu olhar, vou seguindo o braço, peito, pescoço. Vejo que o dono da mão sou eu, ou meu reflexo. O duplo gargalha ao notar meu espanto e diz: "Você nunca conseguirá fugir de si mesmo".



Mais de um ano se passou desde então. Todas as noites encontro comigo mesmo e assisto a meu duplo me matar. Acho que estou mais próximo do momento em que ficarei de vez pela escuridão. A cada dia este pensamento torna-se mais reconfortante.


Imagem: auto-retrato.

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